09/02/2011

Uma primavera árabe? Ou apenas uma tempestade de inverno?

O mundo vem acompanhando, atordoado e às vezes apavorado, as diversas manifestações que se espalham e multiplicam pelo mundo árabe. É surpreendente como a imolação de um desempregado contra a violência policial deflagrou uma revolução (de Jasmim, na Tunísia) e depois explodiu em diferentes intensidades em outros 8 países (Marrocos, Argélia, Líbia, Egito, Síria, Jordânia, Omã e Iêmen).

Os acontecimentos estão levantando questões importantíssimas: Será a Revolução de Lótus (Egito-2010) a próxima da lista? Será o Mundo Árabe sacudido por uma onda democrática similar a que vinte anos atrás varreu o autoritarismo do Leste Europeu?

As suposições variam pouco:
Mesma língua, mesma etnia, ditaduras similares (todas brutais, corruptas e ineficientes), mesma maioria religiosa (islamismo sunita), países economicamente e politicamente conectados
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Uma população exausta de miséria, desemprego, corrupção e falta de liberdade... as redes sociais (facebook, twitter, etc.) negligenciadas pelos opressores, mas utilizadas pelos jovens para informar, denunciar e mobilizar
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REVOLUÇÃO

Assim posto, a causa dos movimentos, sua intensidade e alcance não é mistério para ninguém, apesar de inesperado. De retrospecto, tudo sempre fica mais fácil, não é verdade? O que permanece complicado é o futuro.

No Egito, a própria The Economist, em meados de 2010, já havia mencionado sobre os ventos de mudança na nação árabe (apesar de não suspeitar de um levante popular). A Revolução de Jasmim foi apenas um toque de despertar para os manifestantes egípcios. São tantas as dúvidas sobre a transição, que ainda é possível duvidar que ela possa realmente ocorrer.

A Argélia e o Iêmen passam por situações complicadas, já que vivem ou viveram recentemente guerras civis, radicalismo islâmico e situação econômica delicada. Ninguém sabe onde isso tudo vai chegar.

A Jordânia, apesar dos protestos pró-democracia, não sofre um levante contra a monarquia. Apesar da tensão, compartilho da visão de que haverá uma certa abertura política e o congelamento das reformas econômicas (o necessário para apaziguar a oposição).

Nos demais países as coisas parecem já ter voltado ao normal, apesar dos pesares.

Enfim, a tempestade de inverno que se formou na Tunísia e se espalhou pelos demais países árabes irá provocar mudanças, mas dificilmente as coisas evoluirão para uma transformação democrática na envergadura da velha "Primavera do Leste"... Para a tristeza dos milhares de manifestantes em busca de Liberdade e Mudança, e o árabe que aqui escreve.

2 comentários:

Saulo Franco disse...

Olá Cury,
Muito bom o texto. Concordo com sua visão moderada (como disse anteriormente, você é o único árabe moderado rsrs), mas meu medo é o aparecimento de regimes teocráticos baseados no fundamentalismo islâmico e no apoio ao terrorismo. No atual mundo político, vejo com pessimismo as "mudanças"... Bom, vamos aguardar o desenrolar das coisas... Abraço, Saulo

Rafael Fraga disse...

E ae Cury, mto bom o texto.
E o problema de se derrubar o governo através de uma revolta popular, que não quer assumir o poder é esse, o lugar fica vago, entao quem tiver mais habilidade política vai ocupar o poder. Com isso podemos ver o Egito como um governo teocrático, ou com uma democracia.
Desta forma ao ser fazer uma revolução você corre o risco do tiro saindo pela culatra, mas é algo esperado. E podemos ver esse risco inclusive na história do Brasil, pois o livro 1822 que eu estou lendo, mostra que o momento da independencia brasileira poderia ter levada a vários brasis, como na américa espanhola, ou a um unico e improvavel país. Quem sabe o improvavél acontecerá no Egito e veremos uma democracia ?

Abraços, Rafael Fraga