Depois de um mês sumido, apenas assistindo às oscilações de nossa política monetária e às mudanças governamentais de rota nos Correios e Infraero, estou de volta. O noticiário desse fim de semana foi bombástico demais para um cristão árabe, economista e liberal como eu dormir calado! O caçula do Khadafi bombardeado, Osama capturado, Síria sob protestos, atentados no Marrocos, Transição no Iêmen e Acordo na Palestina: Como os jornalistas tem coragem de reunir isso tudo em um pacote chamado "Primavera Árabe"? Primavera é o casamento real na Inglaterra, o que está ocorrendo no mundo árabe é uma tempestade sem fins previsíveis.
Eu nunca acreditei naquele papo de que democracia não serve para o mundo árabe, e, comparando à realidade latinoamericana (confusão entre nacionalismo e socialismo), acabei caminhando em outra direção: Os nacionalistas árabes, em sua luta contra o Imperialismo ocidental, acabaram encurralados entre dois caminhos - o Socialismo e a Teocracia (islâmica).
A busca pela tradição e a fé, a divisão da região em diversos países, além do conflito com Israel, acabou contribuindo para a decadência das cidades cosmopolitas árabes e suas minorias cristãs, armênias e judias (tema de post no blog do Gustavo Chacra). Pobres, menos diversas, mais conservadoras e em estado de guerra, essas nações só poderiam caminhar para revoluções.
E foi o que acabou acontecendo: Tanto a teocracia quanto o Socialismo (Nasser à frente) tinham viés autoritário. Essa visão esquerdista que deu origem às ramificações do Partido Baath no Iraque e na Síria, além do PND no Egito, foram derrotadas pela realidade pós-URSS e a corrupção. Não demorou muito tempo para estes Estados se realinharem aos EUA ou pelo menos se acomodarem na nova realidade.
Eis que surge o Irã teocrático e o Hezbollah libanês: O que se viu nos últimos anos foi uma substituição da guerra fria ideológica por uma Guerra Fria religiosa. Agora se divide essa região assim: árabes X judeus; sunitas X xiitas (Irã); Radicais X EUA.
Os partidos islâmicos, com seu histórico de fé, honestidade e sentimento anti-americano, foram crescendo na preferência desse eleitorado cada vez mais conservador e empobrecido. Movimento que envolve e aterroriza não só o Ocidente, mas também as elites e classes médias de viés secular.
O Tony Blair deu entrevista ao Globo em que defende a invasão do Iraque como o melhor para o país (alega que eles atenderam ao clamor por liberdade e desenvolvimento), além de ressaltar os riscos do radicalismo religioso e da inimizade étnica para o futuro de qualquer democracia na região. Nem todo o mundo árabe pode ser comparado ao Egito e à Tunísia.
Com o Obama indo ao ar para anunciar o assassinato e captura do corpo de Osama Bin Laden, novas dúvidas nascem sobre o futuro da Al-Qaeda e de suas filiais no Iraque e Iêmen. A Síria está cada vez mais instável, e isso interfere no equilíbrio de poder entre Israel e Irã. As incertezas no Iêmen e no Bahrein lançam dúvidas sobre as divisões religiosas em território saudita, cujas minorias religiosas são majoritárias nas províncias petrolíferas. O Hezbollah agora controla o governo no Líbano, equilibrando-se na corda bamba sectária que já levou a graves conflitos no passado.
Amigos, estamos em tempos nos quais tudo que é solido (e podre) se desmancha no ar. As volúveis e instáveis areias dos desertos ao sul e leste do mediterrâneo estão apenas começando a se movimentar. O que, venhamos e convenhamos, se parece mais com o prenúncio de uma terrível tempestade do que com a perfumada e doce chegada da primavera.