30/03/2007

Será o Fim da Novela da Varig?

Foi anunciado pela Gol à compra da "nova" Varig por US$320 milhões. Antes que se faça confusões a "nova" Varig é a parte operacional da antiga Varig, sendo, em tese, uma empresa que não está ligada ao passivo de R$7 bilhões de reais da antiga Varig. Assim sendo, a Gol acaba de adquirir uma empresa com o total de 17 aeronaves, e já tem planos para que num futuro próximo esse número se expanda para 34.


Contudo, o interesse principal da Gol nessa aquisição não é pela fatia de mercado correspondente a da Varig, que embarcou, em 2006, 763 mil passageiros, e sim nos slots que a Varig tem direito nos aeroportos internacionais como: Paris, Londres, Madri, Milão, Nova York e Miami. Estes apresentam um elevado grau de dificuldade para serem conseguidos, pois é necessário entrar numa fila de espera gigantesca, que torna praticamente impossível a atuação de novas empresas nesses aeroportos, num curto horizonte de tempo. Desse modo, com o direito de utilização desses espaços, a Gol passará a operar no mercado internacional de aviação utilizando o seu modelo de baixos custos, com o intuito de se proteger das flutuações do mercado interno.


Mas a compra da "nova" Varig apresenta um risco superior ao que se tem normalmente em aquisições de empresas. É que dívida da "velha" Varig passará para a "nova" Varig fazendo com que a Gol tenha que assumir um passivo de 7bilhões de reais, que consumirá a saúde da empresa. E para complicar ainda mais a situação, nós só saberemos se essa herança maldita vai ser repassada, quando o processo judicial de falência da "velha" Varig chegar ao seu fim. Assim, um novo fator de risco há que ser somado, a morosidade da nossa justiça.

28/03/2007

Em terra de cego, quem tem um olho é rei!

Seguindo a série " ditados populares", hoje eu vou falar da relação de ódio carnal entre o Banco Central e os políticos (pelo menos os do Palácio do Planalto e do Congresso).

Toda vez que alguém critica o Banco Central de covarde, neoliberal e contrário ao desenvolvmento nacional (não se assustem, a discussão em Brasíla é nesse nível mesmo!), o Henrique Meireles responde afirmando que não pode acelerar a queda dos juros por causa do efeito defasado dos cortes anteriores (que são imprevisíveis) e do aumento dos gastos públicos.

Mas ele não está totalmente certo. Esses são mesmo fatores que aumentam a demanda agregada, mas manter os juros altos não vai fazer o Governo economizar. Além disso, a baixa cotação do dólar e o imenso superávit comercial ajudam a manter a estabilidade de preços no mercado interno através da concorrência entre produtos importados e nacionais. É muito importante lembrar que a queda dos juros ajudariam a evitar a continuação da queda do dólar, que já prejudica o setor exportador e vem gerando dificuldades ao Banco Central.

Por outro lado, a retórica de defensores do desenvolvimento por nossos evoluídos e desapegados políticos, esconde uma carta na manga (isso pra não dizer outras coisas...). É verdade que os altos juros representam um pesado gasto para o Governo e o investimento público é mínimo. É correto considerar os juros como um intrave ao investimento privado. Mas a criação de um sistema regulatório completo e com agências fiscalizadoras eficientes abriria ao capital privado (que aliás, está ávido por esse momento) o setor de saneamento, infra-estrutura de transportes e geração de energia. Uma melhoria nos gastos públicos que levassem à maior eficiência e eficácia também ajudaria muito o investimento público. E uma reforma tributária verdadeiramente simplificadora diminuiria o segundo maior inibidor de investimentos no Brasil, que é a caríssima e monstruosa carga tributária.

O Banco Central pode estar agindo de forma equivocada. Mas no final das contas, o que podemos enxergar é a velha paixão política brasileira de empurrar para os outros todas as dificuldades enquanto se lava as mãos de suas próprias responsabilidades.

Havia uma infinidade de opções que facilitariam e estimulariam o investimento público e privado, mas não são fáceis. Elas exigem que os políticos brasileiros percam seu preconceito contra o capital (e o lucro) e aceitem diminuir a máquina pública (tão fundamental aos seus interesses financeiros e eletorais).

Mas, enquanto ninguém em Brasília consegue enxergar o absurdo desse tiroteio entre míopes, nada é mais valioso do que o velho e sábio ditado popular: Em terra de cego, quem tem UM olho é rei!

23/03/2007

Descompasso entre Chávez e a População

A Venezuela hoje passa por uma situação no mínimo, curiosa. Pois o seu presidente Hugo Chávez, sentado em petrodólares já anunciou a sua intenção de transformar a Venezuela no primeiro país a adotar o socialismo do séc. XXI, nomenclatura criada por ele, e que já vem ganhando adeptos na America Latina.

Assim, em busca de sua causa, Chávez faz discursos inflamados contra o capitalismo, contra a cultura do consumismo, e também, contra o melhor representante do sistema, os Estados Unidos.

Até esse momento, nada mais previsível do que uma retórica populista sul-americana, que nós brasileiros já estamos acostumados de ver. Entretanto o que torna a situação da Venezuela curiosa é como que a população tem reagido ao discurso de seu presidente. Dados estatísticos mostram que os venezuelanos pouco se importam com o que diz Chávez. Eles não abandonaram o consumismo (como ele prega) e sim o intensificaram. Para se ter uma idéia, o consumo de carros aumentou 50% em 2006, a quantidade de implantes de seios aumentou em 80% e o volume de empréstimos cresceu 118%.

Agora vamos ver se Chávez consegue vender o seu socialismo não só para índios bolivianos, mas também para os seus compatriotas.

21/03/2007

Melhor um pássaro na mão do que dois voando!

Aproveitando o título do texto anterior, vou continuar seguindo a boa e velha sabedoria popular. Utilizável em quase tudo, inclusive para se falar em economia.

Quando um banco quer emprestar dinheiro, a primeira coisa que ele tem de fazer é reunir recursos dos clientes (captação de aplicações) ou do mercado (de outros bancos ou investidores). A taxa que ele paga (em geral próxima a taxa CDI, que em outra ocasião eu explico o que é) chama-se custo de captação e é determinada no Mercado Financeiro.

A diferença entre a taxa de juros cobrada dos devedores e o custo de captação, conhecida como spread, é determinada por diversos fatores, medidos dentro de cada Banco. Os custos (funcionários, material, cobrança, etc.), o risco de inadimplência e o lucro do Banco são os principais.

Quando lançaram o crédito consignado, o Governo Federal o anunciou como uma grande medida para melhorar a situação dos tomadores de empréstimos. De fato, para quem pagava mais de 5% ao mês a taxa passar para 2% é uma grande vitória.

E todos acham que ganharam. Doce, porém mentirosa, ilusão. Ao contrário do que se poderia esperar, os spreads caíram muito pouco. A diminuição do risco e dos custos para o Banco compensaram em grande parte a diminuição das taxas cobradas. Além disso, a redução da SELIC desde setembro de 2005 reduziu o custo de captação (ela é um dos parâmetros que definem a Taxa CDI) dos bancos. Ou seja, dizem que os consumidores ganharam. Mas foram os lucros bancários que aumentaram ainda mais.

Mesmo assim, vale o ditado: melhor ter um passarinho na mão, dos que dois voando.

09/03/2007

Taxa de Juros, a odiada do século...

Todo mundo sabe que a taxa de juros paga pelo Governo (a tão falada SELIC) é muito alta. Sempre foi, desde que o Plano Real foi implantado. Nos anos 2000, com o câmbio flutuante e o regime de metas de inflação, as taxas de juros passaram a ser usadas por dois motivos: para diminuir a atividade econômica quando houvesse risco de retorno da inflação e, de intenções não divulgadas, mas que todo mundo sabe, para valorizar o Real (câmbio valorizado tende a conter os aumentos de preços industriais e de serviços públicos privatizados).

A consequência disso era que os investidores estrangeiros, percebendo a diferença entre as elevadas taxas de juros brasileiras e as baixas taxas de juros internacionais, traziam seu dinheiro para cá. Esse excesso de dólares reduzia a taxa de câmbio e diminuia a inflação, já que incentivava a competição entre os produtos importados (que ficavam mais baratos) e os produtos brasileiros.

Uma vez com reais em mãos, os estrangeiros financiavam a imensa dívida do Setor Público (que é uma das causas dos altos juros cobrados ao setor privado) e investiam em ações (os estrangeiros estão entre os principais motivos para a valorização das ações nos últimos anos).

Só que, com grande saldo comercial e elevadas aplicações especulativas, o excesso de dólares está obrigando o Banco Central a comprar dólares para não ocorrer uma excessiva valorização do Real, o que levaria à ruína o setor exportador e as indústrias nacionais que não conseguem competir com a China, além de inviabilizar investimentos produtivos. Ao destruir lucros e empregos, afetando a parte mais sensível do corpo humano (o bolso), é que a SELIC se tornou a grande vilã nacional.