24/02/2011

Ocidentalização do Mundo? Ou apenas democratização?

Existe um debate vigoroso na China, e como sempre discreto, entre acadêmicos e políticos sobre como definir valores: A democracia, os direitos humanos e a liberdade são questões universais ou locais? A tradição ocidental, expressa na democracia liberal, é o único modelo de democracia ou existem modelos locais, nacionais?

O regime comunista vem defendendo que seu país é livre e democrático, mas à maneira chinesa. O regime político, bem como questões de direitos humanos, são assuntos internos e dependem da cultura nacional. A democracia liberal seria apenas o modelo vigente na Europa, América e partes da África.

Ocidentais e dissidentes enxergam, nas entrelinhas desse debate, a tentativa chinesa de legitimar o seu regime e justificar o contato com outros regimes não-democráticos. Vozes se ergueram sobre o que seria o Consenso de Beijing: Não interessa o sistema político, isso é assunto interno (e ponto final)... Vamos aos negócios! Esse consenso ganharia adeptos em linha com a ascensão econômica e militar chinesa.

Essa postura esvazia algumas estratégias ocidentais, que costumam exigir liberdade e democracia para formar alianças econômicas. Situações embaraçosas podem ser vistas no Sudão, Mianmar e Sri Lanka. Claro, não sejamos bobos: As exigências liberais do Ocidente costumam variar de acordo com a necessidade e interesse - e se concentram, quase sempre, na área econômica.

Mas a tempestade árabe que se alastra pelo norte da África e Oriente Médio pode trazer a balança do debate para o lado dos universalistas: As revoltas não abominam tradições e costumes locais (religião, língua, forma de estado e governo, etc.), pedem apenas liberdade de expressão, opinião e associação (política, inclusive). Eles querem o direito de participar do governo e das decisões públicas, e não anexar os seus países à Europa e América.

Nessas regiões, os jovens e outros oposicionistas tentam firmar a democracia como um valor tão importante como os demais. Se vai funcionar, ainda é incerto, mas que é empolgante, disso não tenho dúvida!

16/02/2011

Dilma Roussef: Uma guinada ao Liberalismo?

Um antigo professor meu da Universidade, brilhante até no nome, costumava dizer que a Esquerda brasileira, quando chegava ao poder, virava Direita. O próprio Lula, ícone político, foi mais nacionalista do que propriamente esquerdista. Não foram poucos os que notaram as similaridades de algumas de suas ações econômicas com as do General Geisel. Mas a Dilma parece estar seguindo em frente.

Privatizar aeroportos, abrir o capital da Infraero, profissionalizar o Sistema ELETROBRAS, cortar despesas, incentivar o investimento privado de longo prazo, reaproximação com os EUA, crítica às ditaduras amigas (leia-se esquerdistas), Não-intervenção (ou opinião) em assuntos externos de outros países, respeito aos contratos, mais cuidado na abordagem da regulação da imprensa...

Apesar do alcance limitado, essas medidas liberais são uma mudança interessante... Poderia ser tudo pura lorota de governo novo para impressionar o mercado e a sociedade, afinal de contas vícios do antigo governo foram mantidos (Inchaço da Máquina, muitos políticos e apadrinhados com emprego). Mas e se a Dilma estiver falando sério? Aliás, ela já deu diversas mostras de que deve ser levada a sério (Lobão e Haddad que o digam).

Até que ponto ela irá, ainda é uma incógnita. Como bom árabe, não costumo apostar minhas moedas em rumores, mas surge uma pontinha de esperança. Sem o carisma de Lula e aquela mania dele de falar demais e permitir tudo, ela terá que construir seu nome sobre Crescimento Econômico Sólido e Gerência Rigorosa da União.

Essa pode ser uma excelente oportunidade para o Brasil. Existem questões pendentes sobre agências reguladoras, mineração, energia, portos e rodovias. O bom acompanhamento destas fortaleceria o novo ciclo econômico brasileiro, cada vez mais um país de classe média. Enfim, eis uma novela da qual estou ansioso pelo próximos capítulos!

10/02/2011

Começamos a política fiscal com o pé direito.

Nunca pensei que o meu primeiro post no Liberalis Dextra, que é um blog formado por três economistas com visões liberais e a direita do espectro político, fosse uma contestação positiva de um governo suposto de esquerda, e que foi eleito pelos votos da base da pirâmide social, a contra gosto da dita classe média.

E qual o motivo deste improvável título para este blog?

Essa seguinte matéria de capa do Valor Econômico de hoje Cortes indicam queda real de 2,6% na despesa | Valor Online 

Com isso o dia de ontem se aponta com um momento histórico da política fiscal sobre o comando do PT, pela primeira vez, as políticas fiscais e monetárias andaram de mão dadas. (Até que enfim!). Com isso a sinalização que o governo de Dilma está dando é bem clara, estamos preocupados com inflação e queremos que os esforços do Banco Central sejam minimizados, ou seja, uma salva de palmas ao pragmatismo.

E algo muito importante, os cortes vão ser feitos em áreas bastante sensíveis ao funcionalismo público, porque serão feitos em grande parte no custeio, onde há grande oportunidade de economia, como já pude presenciar em projetos de gestão em governos estaduais, e que demandam mudança de cultura das pessoas envolvidas e uma saída da sua zona de conforto. E o interessante é que não só os atuais funcionários públicos, como os futuros vão sofrer o impacto desta inflexão, pois todos os concursos e nomeações estão suspensos para esse ano, enfim acabou a era da bonança para os concurseiros, mas não fique desesperado, o funcionalismo só vai parar de crescer, mas ainda vai ser necessária a reposição dos que se aposentaram.

Isto me lembra das minhas discussões calorosas na época da eleição, que ouvi de várias pessoas que iriam votar na Dilma, porque ela iria manter os concursos e o Serra iria corta-los, doce ilusão, ações bruscas como essa (cortar concursos) não iriam acontecer do nada, e sim devido a uma variedade de causas que embasariam essa medida, independente de quem fosse o governante. 

E por fim outra área crítica é as emendas parlamentares, e nessa eu deixo uma pergunta, como um "poste" vai saciar a ânsia de poder dos nossos deputados?

09/02/2011

Uma primavera árabe? Ou apenas uma tempestade de inverno?

O mundo vem acompanhando, atordoado e às vezes apavorado, as diversas manifestações que se espalham e multiplicam pelo mundo árabe. É surpreendente como a imolação de um desempregado contra a violência policial deflagrou uma revolução (de Jasmim, na Tunísia) e depois explodiu em diferentes intensidades em outros 8 países (Marrocos, Argélia, Líbia, Egito, Síria, Jordânia, Omã e Iêmen).

Os acontecimentos estão levantando questões importantíssimas: Será a Revolução de Lótus (Egito-2010) a próxima da lista? Será o Mundo Árabe sacudido por uma onda democrática similar a que vinte anos atrás varreu o autoritarismo do Leste Europeu?

As suposições variam pouco:
Mesma língua, mesma etnia, ditaduras similares (todas brutais, corruptas e ineficientes), mesma maioria religiosa (islamismo sunita), países economicamente e politicamente conectados
+
Uma população exausta de miséria, desemprego, corrupção e falta de liberdade... as redes sociais (facebook, twitter, etc.) negligenciadas pelos opressores, mas utilizadas pelos jovens para informar, denunciar e mobilizar
=
REVOLUÇÃO

Assim posto, a causa dos movimentos, sua intensidade e alcance não é mistério para ninguém, apesar de inesperado. De retrospecto, tudo sempre fica mais fácil, não é verdade? O que permanece complicado é o futuro.

No Egito, a própria The Economist, em meados de 2010, já havia mencionado sobre os ventos de mudança na nação árabe (apesar de não suspeitar de um levante popular). A Revolução de Jasmim foi apenas um toque de despertar para os manifestantes egípcios. São tantas as dúvidas sobre a transição, que ainda é possível duvidar que ela possa realmente ocorrer.

A Argélia e o Iêmen passam por situações complicadas, já que vivem ou viveram recentemente guerras civis, radicalismo islâmico e situação econômica delicada. Ninguém sabe onde isso tudo vai chegar.

A Jordânia, apesar dos protestos pró-democracia, não sofre um levante contra a monarquia. Apesar da tensão, compartilho da visão de que haverá uma certa abertura política e o congelamento das reformas econômicas (o necessário para apaziguar a oposição).

Nos demais países as coisas parecem já ter voltado ao normal, apesar dos pesares.

Enfim, a tempestade de inverno que se formou na Tunísia e se espalhou pelos demais países árabes irá provocar mudanças, mas dificilmente as coisas evoluirão para uma transformação democrática na envergadura da velha "Primavera do Leste"... Para a tristeza dos milhares de manifestantes em busca de Liberdade e Mudança, e o árabe que aqui escreve.

06/02/2011

Wikileaks: Diplomacia brasileira mais atrapalhou do que ajudou, segundo os EUA

De acordo com reportagem no jornal O GLOBO, diplomatas americanos, em telegramas, classificaram como ingênuas e desorganizadas as ações diplomáticas do Brasil no Oriente Médio, e um diplomata egípcio classifica a intenção do Brasil de obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU como "obsessiva". O vazamento de informações descrito na reportagem termina com a procura do Rabino Henry Sobel á diplomatas americanos, declarando que o ex-presidente Lula e seu partido são anti-semitas... Bom, vamos por partes:
1) Realmente, a diplomacia brasileira no Oriente Médio foi um desastre. Se analisarmos pela ótica de ações e resultados, chegamos a esta conclusão. O Irã continua como uma peça delicada e o Brasil não adquiriu posições vantajosas, como uma sinalização do famigerado lugar no Conselho de Segurança da ONU e tampouco barganhas econômicas. O que vemos são posições totalmente ideológicas e carentes de planejamento. Reinaldo Azevedo, em seu blog na veja, fez uma lista extensa dos desastres da Política Externa Brasileira. São muitos.
2) O Conselho de Segurança da ONU, apesar de sua importância, mesmo após a invasão do Iraque, vai atender a quê em termos de negociações? Podemos barganhar em rodadas internacionais, mas, se o Brasil for aceito no orgão, por quê não aceitar Alemanha, Japão, Índia, África do Sul e outras diversas nações? A aceitação do Brasil poderia abrir precedentes para outros "chorarem" e barganharem também...
3) Está na hora de judeus deixarem de ser eternas vítimas. Ter uma posição diplomática contrária a Israel é anti-semitismo? Quero aqui ressaltar uma passagem polêmicas do Talmud, livro sagrado dos judeus: "A diferença de um judeu para um gentio, é muito maior que a diferença deste para um animal". Duvida? Pesquise que você encontrará...
Saudações!

04/02/2011

A Europa "era" logo ali...

Buenos Aires é um dos destinos prediletos dos turistas brasileiros. Só nesse ano são esperados cerca de 500.000 tupiniquins na capital portenha. Quando visitei a cidade durante o meu mochilão, esbarrei com conterrâneos em todos os cantos da cidade, sendo até desnecessário falar espanhol.

Mas a riqueza e a glória que tornaram a Argentina um lugar tão belo e instrutivo para se conhecer não existe mais. Aquele que foi um dos países mais ricos do mundo pré-1914, praticamente uma nação europeia em pleno Rio da Prata, não existe mais. Sucumbiu às suas raízes ibéricas e latino-americanas.

Raízes que se fizeram notar na concentração agrária, na violência rural, na famosa e visceral instabilidade política, na dependência britânica e depois norte-americana, no foco excessivo em agro-exportação e consequente desprezo pela industrialização.

Não que a história brasileira esteja livre destes males. Longe disso. Mas a elite brasileira é mais homogênea e conservadora, cautelosa e desconfiada de radicalismos do que sempre foi a sua congênere argentina. Mesmo o Brasil excluído, quando lutou por suas reinvindicações, o fez de forma cautelosa e muitas vezes contida. Prestes, um comunista com armas e patente de oficial, jamais teve o apoio que o o pragmático e focado sindicalista Lula conquistaria anos depois. Modernização sim, mas sempre de forma lenta, calculada e gradual. Aliás, tudo ao melhor estilo português (viva João VI).

O histórico argentino é marcado por reviravoltas dramáticas e infelizmente constantes na política econômica e externa, ocorridas a cada troca de governo (nem sempre dentro da lei) e que custaram caro ao país. Como exemplo, basta observar o neoliberal, gastador e pró-EUA apaixonado Menem e o heterodoxo, estatista e anti-EUA ferrenho casal Kirchner. Cada um deles foi fundo em uma doutrina e, a seu modo, só fizeram afundar ainda mais o país.

Essa instabilidade atrofiou a economia, lançou aos ventos a poupança passada e preencheu com incerteza o presente e o futuro do país. O sétimo país mais rico do mundo (ao lado dos europeus) tornou-se apenas a terceira maior economia latino-americana.

E o pior é que o atual Governo parece não ter percebido isso até agora. Aguardem os próximos capítulos...