24/03/2011

A doença do anti-americanismo

Hoje, em meu último dia de férias, fui a banca de jornal do Parque Halfeld, como de costume. Lá, me deparei com a cena de sempre: algumas pessoas, em sua maioria idosos, lendo as manchetes e comentando as reportagens. Fui fazer o mesmo, mas fiquei alguns poucos segundos, para evitar um bate-boca. No momento em que cheguei, um senhor, bem vestido, colérico e enfurecido dizia: "Estes americanos são hipócritas! Atacam a Líbia por causa do petróleo! Os EUA estão longe de ser uma democracia! Eles nunca fizeram uma eleição para eleger o dirigente do Pentágono! O povo não vê essas coisas, é falta de consciência política!" É isso mesmo amigo. Você não leu errado, e posso garantir que ouvi estas palavras, perfeitamente. Eu senti vontade de retrucar, de perguntar para ele se o Brasil faz eleições para eleger os generais do Ministério da Defesa, mas pensei "é um homem idoso, não vai mudar suas "convicções". Quando ouvi estas palavras, lembrei de um post, neste blog, do amigo Rafael Cury, em que externou a opinião de uma senhora dizendo que as manifestações populares nos países árabes eram insufladas pelos EUA. Também lembrei de minha tia-avó, nacionalista radical, que tem ódio de americanos e europeus e os vê como culpados de todas as guerras e de toda a pobreza no mundo.
Diante disso, pergunto: este anti-americanismo histérico e irracional é mais forte nas gerações mais velhas? Isto é fruto da baixa escolaridade no passado? Apesar de existirem ainda jovens raivosos (ou invejosos?) dos EUA, vejo que o anti-americanismo é mais forte, intenso e irracional nos idosos. Por que? Será o comunismo? O Governo Vargas? O Governo militar? Quem plantou estas idéias nos brasileiros idosos? Meu palpite: o comunismo contribuiu em maior peso, mas, o Governo Vargas, nacionalista, pode ter influência.
Para mim, este é o "problema" da democracia: todos votam. Se um governo faz uma lavagem cerebral eficiente (como o PT atualmente), ele se perpetua no poder, de forma anti-ética e legítima. No meu ver, em países pobres e não-civilizados, ela não funciona. Por isso eu digo: maldito Mal Deodoro da Fonseca. Maldita República. Viva D. Pedro II, o eterno imperador! Deixo aqui as convicções de um monarquista conservador.

09/03/2011

Os coronéis e seus barris... furados!

A imensa tempestade oriunda da Primavera Árabe, que já derrubou duas ditaduras e arrastou outra para uma guerra civil, pode ser obrigada a dividir as manchetes com uma outra que começa a se formar deste lado do Atlântico.

Entre as causas pelas quais as ditaduras árabes se mantiveram firmes, além da repressão brutal, foi o apoio ocidental (que julgava-os preferíveis à jihadistas) e a formação de Estados Rentistas. Os recursos do petróleo, controlados pelo Estado, dispensavam uma grande tributação e permitiam benesses para aplacar os ânimos da população. Isso não funciona mais no Egito e Líbia, e cada vez mais parece não funcionar na nossa vizinha Venezuela.

O socialismo bolivariano, implantado lá pelo também Coronel Chávez (como Kaddafi), destruiu a iniciativa privada e comprometeu seriamente as finanças das estatais, que operam de forma cada vez mais precária. A não ser que o preço do petróleo mantenha-se elevado por tempo indeterminado, um calote da dívida externa é possível após 2012.

Mas e aí? Se a sorte não ajudar, a situação, já ruim, irá sim piorar. A escassez generalizada de eletricidade e de outros produtos, um problema corriqueiro no país, somados à bancarrota do Estado e da PDVSA (a petrolífera, guardiã da riqueza que carrega o país nas costas), pode conduzir a manifestações e revoltas populares similares às que hoje se erguem no norte da África.

Mas 2012 é também o ano da eleição presidencial. Estará Chavez guardando recursos para esbanjar em ano eleitoral, ou irá simplesmente apressar a bancarrota para se manter no poder? Se ele perder, vai embora como Mubarak, ou seguirá os passos de seu amigo Kaddafi? Mas e se não perder? O que fará para arrumar a bagunça?

Nesses tempos em que os coronéis do petróleo já não são tão fortes como antigamente, essas perguntas são pavorosas: Barris furados de petróleo podem ser tão explosivos como os de pólvora que vemos em desenhos animados, mas não tem nada de engraçado. Principalmente quando explodem na esquina da sua casa!

05/03/2011

O "Pibão" e o Porto de Paranaguá

Na última quinta-feira, dia 03 de março, cheguei em casa, tomei um banho e fui assistir o Jornal Nacional. Como primeira notícia, foi anunciado o crescimento da economia em 2010: 7,5% (melhor resultado desde 1986). Mas o que achei mais interessante, foi a imprensa não se deixar enganar: ressaltou a queda no PIB em 2009 (o que facilita, matematicamente, um crescimento robusto no período seguinte) e fez uma reportagem sobre o Porto de Paranaguá, onde a soja brasileira embarca para abastecer asiáticos e europeus. De acordo com as imagens e relatos de caminhoneiros, a situação no porto é caótica. Por terra, há uma fila interminável de caminhões na estrada, no pátio e no cais; e por mar, há uma fila de navios graneleiros (!) esperando a oportunidade de atracar. Os administradores disseram que obras para a construção de armazéns estão em andamento, e ressaltaram o aumento da produção agrícola nos últimos, que traz á tona os desafios de infra-estrutura. Concordo, claro. O que me choca é ter visto uma reportagem semelhante em 2004 e observar que o caos continua. Mas estas reportagens incentivam comentários pontuais:
1) Nos últimos anos, em alguns pontos, o Brasil tem se preparado para crescer. Nossas missões comerciais, nos últimos 16 anos, desbravaram alguns mercados; Conquistamos, a um custo enorme, a estabilidade monetária (que pode estar ameaçada); Nossa população está ávida para se capacitar e progredir financeiramente; Nossas empresas buscam a modernização e a conquista de mercados; O consumo das famílias tem aumentado; Nossa agricultura observou progressos consideráveis em termos de produção e pesquisa. Obviamente, isto pressiona, em termos de infra-estrutura, um Estado que assumiu compromissos sociais consideráveis e uma nação oriunda de uma década perdida e desafios intermináveis.
2) Apesar das citadas conquistas, nosso sistema tributário é um monstro, nosso setor público é pesado, a educação pública é uma das piores do mundo e carecemos de uma reforma política e uma mentalidade empreendedora, que privilegie o mercado e abandone a cultura do coitado. A administração do PT lançou o PAC 1 e o PAC 2, assumiu o desafio de organizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada e se gaba de patrocinar uma "revolução socioeconômica", mas, o que se vê é a total falta de comprometimento com ajustes fiscais, planejamento, reformas, parcerias público-privadas, privatizações e investimentos em infra-estrutura. O "corte" de Gastos da administração Dilma é apenas um "aumento menor" do dispêndio público, e o governo não sinaliza quais serão as medidas de austeridade nos próximos anos.
3) Como os Gastos Públicos avançaram significativamente no fim do governo Lula e a capacidade instalada não expandiu em diversos setores, os preços aumentam. Diante das incertezas que o governo promove, a redução de credibilidade ameaça conquistas anteriores.
4) Quanto aos grandes eventos esportivos de 2014 (amanhã) e 2016, parte da obra do Maracanã foi embargada pelo TCU. Obras são licitadas apenas com o projeto básico, e, aereoportos, continuam deficientes. A CHANCE DE UM VEXAME INTERNACIONAL, EM GRANDE ESCALA, É GRANDE.
Por fim, como um economista cético e frio que aparece em telejornais, digo: não há motivos para comemorar o "Pibão". Há motivos é para se preocupar com o Gigante deitado enternamente em Berço Esplêndido.

04/03/2011

Fidel, Cháves, Zé Dirceu, Kaddafi X Resto do Mundo

No início da semana eu ouvi de uma senhora esquerdista que a revolta popular que derrubou a ditadura egípcia foi orquestrada pela CIA, já que Mubarak roubava demais e estava atrapalhando os planos americanos para o país. No mesmo dia, Zé Dirceu disse em seu Blog que a revolta líbia era um movimento influenciado e manipulado pelos americanos para invadir o país em busca de petróleo. Opinião semelhante a de Fidel, divulgada alguns dias depois. Mais recentemente, Cháves defendeu o regime afirmando que estava tudo bem na Líbia. Agora, ofereceu mediação no conflito.

Meu Deus, em que mundo os esquerdistas latinoamericanos vivem? Ou melhor, em que século?

Os EUA eram aliados íntimos dos Governos Ben Ali (Tunísia) e Mubarak (Egito), e operavam tranquilamente na companhia de Kaddafi, conhecido como "Monkey King" na Líbia. A Casa Branca foi pega de surpresa com os episódios, que aliás a CIA falhou em prever, e deixou latente a sua insegurança e receio em tomar posições.

Não é para menos: A Tunísia nem era tão importante, mas o Egito é peça central da geopolítica árabe e dos interesses americanos. O Obama deve ter passado noites sem dormir só de pensar que poderia ser acusado pelos republicanos de ser o presidente que perdeu o Egito (Carter foi o acusado de ter perdido o Irã).

A baderna líbia é diferente: O país tem vínculos "carnais" com a Itália e é um grande fornecedor para a UE. Nos últimos cinco anos empresas ocidentais investiram bilhões de dólares no país, enquanto seus governos convidavam o "monkey king" para encontros do G-8 e similares. Mesmo sem morrer de amores, os americanos conviviam muito bem com ele, principalmente na luta contra a Al-Qaeda.

Nesse caso, foi mais fácil tomar uma decisão por 3 motivos: A experiência adquirida das rebeliões anteriores, o risco menor para os americanos (eles tem menos em jogo na Líbia) e a reação psicopata do monkey king (que levou ainda mais gente às ruas, deserção em massa nas forças armadas e no corpo diplomático).

O "Itamaraty a la Roussef" começou muito bem. Graças a Deus ignorou a esquerda cínica e mofada que ainda tem voz na América Latina, o único lugar que os ouve! Os EUA não precisavam derrubar os governos árabes para ganhar dinheiro e petróleo, todos eram aliados deles (exceto Síria). Além do mais, porque duvidar da capacidade popular de se rebelar em nome de Liberdade e Justiça?

Fidel, Cháves e Zé Dirceu são todos ex-guerrilheiros de esquerda, antigos defensores da igualdade social e soberania nacional, que chegaram ao poder pela democracia (exceto o primeiro). Se eles podem lutar em nome da sua consciência, porque nós árabes não podemos? Se eles não agiam em nome dos soviéticos quando buscavam o socialismo, porque os árabes comuns (exclusos da fartura petrolífera) teriam que seguir os americanos para alcançar uma democracia pluralista?

Acorda pessoal: O século 21 começou e a Guerra Fria acabou, a muitos e muitos anos atrás!