28/03/2007

Em terra de cego, quem tem um olho é rei!

Seguindo a série " ditados populares", hoje eu vou falar da relação de ódio carnal entre o Banco Central e os políticos (pelo menos os do Palácio do Planalto e do Congresso).

Toda vez que alguém critica o Banco Central de covarde, neoliberal e contrário ao desenvolvmento nacional (não se assustem, a discussão em Brasíla é nesse nível mesmo!), o Henrique Meireles responde afirmando que não pode acelerar a queda dos juros por causa do efeito defasado dos cortes anteriores (que são imprevisíveis) e do aumento dos gastos públicos.

Mas ele não está totalmente certo. Esses são mesmo fatores que aumentam a demanda agregada, mas manter os juros altos não vai fazer o Governo economizar. Além disso, a baixa cotação do dólar e o imenso superávit comercial ajudam a manter a estabilidade de preços no mercado interno através da concorrência entre produtos importados e nacionais. É muito importante lembrar que a queda dos juros ajudariam a evitar a continuação da queda do dólar, que já prejudica o setor exportador e vem gerando dificuldades ao Banco Central.

Por outro lado, a retórica de defensores do desenvolvimento por nossos evoluídos e desapegados políticos, esconde uma carta na manga (isso pra não dizer outras coisas...). É verdade que os altos juros representam um pesado gasto para o Governo e o investimento público é mínimo. É correto considerar os juros como um intrave ao investimento privado. Mas a criação de um sistema regulatório completo e com agências fiscalizadoras eficientes abriria ao capital privado (que aliás, está ávido por esse momento) o setor de saneamento, infra-estrutura de transportes e geração de energia. Uma melhoria nos gastos públicos que levassem à maior eficiência e eficácia também ajudaria muito o investimento público. E uma reforma tributária verdadeiramente simplificadora diminuiria o segundo maior inibidor de investimentos no Brasil, que é a caríssima e monstruosa carga tributária.

O Banco Central pode estar agindo de forma equivocada. Mas no final das contas, o que podemos enxergar é a velha paixão política brasileira de empurrar para os outros todas as dificuldades enquanto se lava as mãos de suas próprias responsabilidades.

Havia uma infinidade de opções que facilitariam e estimulariam o investimento público e privado, mas não são fáceis. Elas exigem que os políticos brasileiros percam seu preconceito contra o capital (e o lucro) e aceitem diminuir a máquina pública (tão fundamental aos seus interesses financeiros e eletorais).

Mas, enquanto ninguém em Brasília consegue enxergar o absurdo desse tiroteio entre míopes, nada é mais valioso do que o velho e sábio ditado popular: Em terra de cego, quem tem UM olho é rei!

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