Eu nunca acreditei naquele papo de que democracia não serve para o mundo árabe, e, comparando à realidade latinoamericana (confusão entre nacionalismo e socialismo), acabei caminhando em outra direção: Os nacionalistas árabes, em sua luta contra o Imperialismo ocidental, acabaram encurralados entre dois caminhos - o Socialismo e a Teocracia (islâmica).
A busca pela tradição e a fé, a divisão da região em diversos países, além do conflito com Israel, acabou contribuindo para a decadência das cidades cosmopolitas árabes e suas minorias cristãs, armênias e judias (tema de post no blog do Gustavo Chacra). Pobres, menos diversas, mais conservadoras e em estado de guerra, essas nações só poderiam caminhar para revoluções.
E foi o que acabou acontecendo: Tanto a teocracia quanto o Socialismo (Nasser à frente) tinham viés autoritário. Essa visão esquerdista que deu origem às ramificações do Partido Baath no Iraque e na Síria, além do PND no Egito, foram derrotadas pela realidade pós-URSS e a corrupção. Não demorou muito tempo para estes Estados se realinharem aos EUA ou pelo menos se acomodarem na nova realidade.
Eis que surge o Irã teocrático e o Hezbollah libanês: O que se viu nos últimos anos foi uma substituição da guerra fria ideológica por uma Guerra Fria religiosa. Agora se divide essa região assim: árabes X judeus; sunitas X xiitas (Irã); Radicais X EUA.
Os partidos islâmicos, com seu histórico de fé, honestidade e sentimento anti-americano, foram crescendo na preferência desse eleitorado cada vez mais conservador e empobrecido. Movimento que envolve e aterroriza não só o Ocidente, mas também as elites e classes médias de viés secular.
O Tony Blair deu entrevista ao Globo em que defende a invasão do Iraque como o melhor para o país (alega que eles atenderam ao clamor por liberdade e desenvolvimento), além de ressaltar os riscos do radicalismo religioso e da inimizade étnica para o futuro de qualquer democracia na região. Nem todo o mundo árabe pode ser comparado ao Egito e à Tunísia.
Com o Obama indo ao ar para anunciar o assassinato e captura do corpo de Osama Bin Laden, novas dúvidas nascem sobre o futuro da Al-Qaeda e de suas filiais no Iraque e Iêmen. A Síria está cada vez mais instável, e isso interfere no equilíbrio de poder entre Israel e Irã. As incertezas no Iêmen e no Bahrein lançam dúvidas sobre as divisões religiosas em território saudita, cujas minorias religiosas são majoritárias nas províncias petrolíferas. O Hezbollah agora controla o governo no Líbano, equilibrando-se na corda bamba sectária que já levou a graves conflitos no passado.
Amigos, estamos em tempos nos quais tudo que é solido (e podre) se desmancha no ar. As volúveis e instáveis areias dos desertos ao sul e leste do mediterrâneo estão apenas começando a se movimentar. O que, venhamos e convenhamos, se parece mais com o prenúncio de uma terrível tempestade do que com a perfumada e doce chegada da primavera.
2 comentários:
Velinho,
Seu artigo está espetacular. Como sempre captando muito bem a essência de suas raízes. Ótima iniciativa de reativarem o blog e incitarem novas discussões.
Grande abraço, Henrique Fonseca.
Olá Cury!
Reforço as palavras do Henrique Fonseca. Ótimo texto. Gostei muito de sua análise no que diz respeito a divisão política no mundo árabe, no que diz respeito á Teocracia Radical e ao Socialismo/Terrorismo.
Abraço,
Saulo
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